Da minha lista crescente de pendências de leitura, consegui nesta última semana ler com mais atenção a edição de Setembro de 2011 da Harvard Business Review. Me chamou especial atenção o artigo mencionado no título deste post.
Todos sabemos que o mundo (e as nossas vidas, e as empresas) vem se tornando cada vez mais complexo. Este interessante artigo faz uma análise sobre este tema e sugere que é cada vez mais difícil sustentar vantagem competitiva ao longo do tempo. Clientes são mais difíceis de agradar e manter, novos concorrentes surgem o tempo todo. O que funciona hoje pode não funcionar amanhã.
Uma pausa rápida para uma reflexão pessoal: neste cenário, mais do que nunca, confirmamos a máxima de que o principal diferencial competitivo de uma empresa são as pessoas, seus funcionários. Funcionários motivados, que acreditam num senso de propósito maior proposto pela empresa, que vão muito além do óbvio (e necessário) retorno para o acionista. São estes funcionários que vão representar o diferencial competitivo da empresa, que precisam saber articular o valor agregado de seus produtos e serviços neste cenário complexo e em constante mudança.
Voltando ao artigo, como reflexo da complexidade observou-se ao longo do tempo uma explosão nos requerimentos ou metas de performance utilizados pelas empresas. O autor cita que os CEOs em 1955 trabalhavam com de quatro a sete requerimentos, enquanto hoje trabalham com de 25 a 40.
E aqui começa a parte realmente interessante... A complexidade em si não é uma coisa ruim. O problema não é a complexidade, é a maneira como as empresas lidam com ela, criando níveis, cargos, estruturas hierárquicas, medições de performance e incentivos cada vez mais complexos, na tentativa de alinhar o comportamento dos funcionários com as constantes mudanças e novos desafios.
O resultado: em pesquisa realizada ao longo dos últimos 15 anos pelo Boston Consulting Group, foi constatado que a quantidade de processos, procedimentos, camadas organizacionais, corpos de coordenação e pontos de aprovação e decisões aumentaram entre 50% e 350%.
O custo para as empresas: nas 20% mais complexas os gerentes passam 40% preparando relatórios e entre 30% e 60% na coordenação de reuniões. Assustador, ainda mais se pensarmos (ou lembrarmos...) que umas das principais funções de qualquer gerente é trabalhar com seu time direto, orientá-lo nas atividades do dia a dia e facilitar que este time seja o mais produtivo possível.
O artigo sugere seis regras para que as empresas lidem melhor com a complexidade:
1. Trabalhar para que cada funcionário entenda o que seus pares fazem, e quem deve fazer o que;
2. Reconheça e reforce o papel das pessoas que atuam como integradores;
3. Expanda a quantidade de poder no sistema (isso não é delegação de aprovações, é criar novas ações ou decisões que possam ser executadas pelas pessoas);
4. Aumente a demanda por reciprocidade: a responsabilidade é de todos, e não de um só, ou de apenas uma área.
5. Faça com que as pessoas sintam “a sombra do futuro” sobre elas: o autor dá um exemplo interessante de uma empresa que precisava aumentar a garantia de seu produto e para isso precisava reduzir custos de manutenção. Mas, ao mesmo tempo, tinha que seguir reduzindo o consumo de energia e o tamanho do equipamento, o que dificultava a manutenção. Várias tentativas de incentivar os engenheiros falharam, em especial porque o programa de incentivos ficava tão complexo, com tantos detalhes, que não motivava ninguém. A solução: mover alguns engenheiros para a linha de manutenção para que experimentassem rapidamente a consequencia de suas decisões.
6. Culpe aqueles que não cooperam: ao invés de buscar identificar um responsável único, culpe aqueles que não cooperam no trabalho, aqueles que se satisfazem dizendo “eu fiz a minha parte”. São estes (e a prática de não reconhecer aqueles que trabalham de maneira mais cooperativa em favor dos grandes “heróis”) quem mais prejudicam a produtividade.
Muito útil também são as dicas do que não fazer:
. Nunca adicione um processo ou uma camada a menos que seja absolutamente necessário;
. Nunca culpe a mentalidade ou o estado mental (mind-set) de alguém por um problema. Ao contrário, procure entender as restrições, objetivos e recursos que as pessoas dispõe para executar o seu trabalho;
. Não deixe as decisões serem escaladas para você (gerente);
. Não se baseie em incentivos financeiros;
. Não tente medir comportamentos específicos. O comportamento de maior valor agregado, a cooperação, não pode ser medido de forma eficiente.
Bom, mais do que isso só vocês lendo o artigo … mas vou fechar este post reforçando minha opinião: o foco deve ser nas pessoas, não nas tarefas. O papel do gerente é facilitar, e não só medir e cobrar. O valor agregado do gerente para a empresa tem que ser muito mais do que produzir relatórios e participar de reuniões internas. A complexidade é boa, mas exige pessoas motivadas e bem orientadas, e isso não pode ser conseguido apenas com planos de incentivos e recompensas financeiras. A cooperação e a colaboração são o sistema nervoso de uma empresa com excelência de execução.
Isso daria uma boa tese de doutorado... :)